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A Inevitabilidade da Guerra

Francisco Novellino*



Publicado no blog MAR & DEFESA em 27 de março de 2022



Imagem: https://www.todoestudo.com.br/historia/guerra-do-peloponeso. Acesso realizado em 25/01/22.



* Editor do blog MAR & DEFESA.



INTRODUÇÃO
O presente artigo já estava em maturação desde o início de 2022, quando o mundo se voltava para a disputa EUA x China, especialmente no que concerne ao acordo AUKUS e a ameaça sobre Taiwan. Desconhecia seu autor que, por ocasião de sua publicação, estaria ocorrendo um conflito no coração do continente europeu, envolvendo diretamente a Rússia e a Ucrânia e, indiretamente, os EUA e seus aliados da OTAN.

A triste realidade é que, desde o registro bíblico do primeiro homicídio (Caim e Abel), o conflito entre seres humanos nunca deixou de existir. Faz parte da nossa natureza competir uns com os outros para alcançar o objeto do nosso desejo. Inveja, ciúme, ira e contenda parecem fazer parte do DNA da humanidade. O apóstolo Tiago, na sua epístola, expressa de forma bastante direta a razão para a existência de conflitos entre os seres humanos: "De onde procedem as guerras e contendas que há entre vós? De onde, senão dos prazeres que militam na vossa carne? Cobiçais e nada tendes; matais, e invejais, e nada podeis obter; viveis a lutar e a fazer guerras." (Tg 4:1-2b).

Diante dessa realidade, o melhor que os governantes têm a fazer é preparar adequadamente seus concidadãos para a ocorrência de um eventual conflito. As iniciativas diplomáticas e comerciais no sentido de evitar ou contornar o emprego do poder militar são de todo bem vindas, mas seria uma irresponsabilidade delegar a outrem a defesa do seu território, bens e população - ainda mais no caso de um país como o Brasil, abundante em recursos naturais e fronteiras secas e molhadas.

Cremos que poucas pessoas desejam que ocorra uma guerra; certamente a maioria abomina os conflitos armados quando eles ocorrem. Entretanto, como reza o ditado, "não se pode tapar o Sol com uma peneira". Basta que um grupo humano organizado possua interesses comuns, para que um outro grupo próximo veja esses interesses como obstáculo aos seus próprios interesses. E quando os dois grupos não identificam algo que possa leva-los a se complementarem um ao outro, ao invés de disputarem entre si, serão grandes as possibilidades de um conflito.

Tendo em vista que a guerra envolve, como vimos, aspectos da natureza humana, desde o núcleo familiar até organizações complexas - como o são os estados nacionais -, julgamos conveniente trazer ao conhecimento dos leitores do MAR & DEFESA trechos de dois artigos e de um livro que evidenciam aspectos concernentes à natureza, à finalidade e ao desenvolvimento da guerra. São eles:

- Guerra e Agressividade Humana, de Luiz Guilherme Sá de Gusmão, publicado na Revista Marítima Brasileira (RMB), v. 141, n. 07/09 - jul/set 2021, de onde foram destacadas as considerações sobre a agressividade aparentemente inata da raça humana. O autor é Almirante de Esquadra da Reserva, com doutorado em Ciências Navais pela Escola de Guerra Naval, tendo exercido, como último cargo na Marinha do Brasil, o de Chefe do Estado-Maior da Armada;

- Ensaios de Grande Estratégia Brasileira, de João Paulo Alsina Junior, publicado pela FGV Editora (2018), do qual procurou-se evidenciar qual é a responsabilidade dos governantes no preparo dos seus países para os conflitos armados. O autor possui doutorado em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília, tendo exercido funções atinentes ao tema "Defesa e Segurança" no Itamaraty e no Ministério da Defesa, por quase 20 anos;

- A Arte da Estratégia, de Antonio Ruy de Almeida Silva, publicado na Revista Marítima Brasileira (RMB), v. 141, n. 10/12 - out/dez 2021, de onde foram extraídas passagens que abordam a vontade e a formulação estratégica nacionais como fatores primordiais em uma guerra. O autor é Vice-Almirante da Reserva da Marinha do Brasil, professor da Escola Superior de Guerra e membro do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Escola de Guerra Naval. Possui doutorado em Relações Internacionais pela PUC do Rio de Janeiro e doutorado em Política e Estratégia Marítimas pela Escola de Guerra Naval.

Os textos selecionados certamente irão contribuir para que o leitor entenda que a melhor forma de se evitar um conflito é preparar-se de forma racional e organizada para a ocorrência do mesmo. Cabe igualmente ressaltar que compete ao Poder Político "tomar as rédeas" das políticas que orientam a Defesa nacional, para que o Poder Militar e a Guerra não sejam um fim em si mesmos. De acordo com conceituação formulada por Julian Corbett - um dos grandes teóricos da Guerra Naval, ao lado de Alfred Mahan -, a guerra é "um ato de violência para se obter um propósito político... e variará de acordo com a natureza desse propósito e com a intensidade do desejo em alcança-lo." **

** CORBETT, Julian S. "Principles of Maritime Strategy" (1911). Citação extraída de A Arte da Estratégia.




TEXTOS SELECIONADOS


1. Extraído de "GUERRA E AGRESSIVIDADE HUMANA" (Luiz Guilherme Sá de Gusmão)


O que leva a nossa espécie – Homo Sapiens – à luta intraespécie? Somos agressivos por natureza, ou seja, é uma característica dos seres humanos, que nos leva a fazer guerra, ou é algo que pode ser modificado e, até mesmo, vir a desaparecer com o processo civilizatório, de modo a alterar esse comportamento presente desde o surgimento de nossa espécie no planeta Terra?


A motivação para este artigo veio da pergunta feita por Albert Einstein a Sigmund Freud, em 1932, em correspondência aberta patrocinada pela Liga das Nações. Logo no primeiro parágrafo da carta, Einstein indaga: Existe uma maneira de libertar os homens da fatalidade da guerra? Após algumas considerações, Einstein menciona o insucesso de se chegar a uma condição de segurança internacional para evitar o flagelo da guerra. Na busca do estado de paz, muitas tentativas haviam sido feitas, todas elas infrutíferas. Ele atribui esse fracasso a fatores psicológicos, como a sede de poder, o interesse de certos grupos no comércio de armamentos, ganância e capacidade de confundir as massas e usá-las em proveito da política que tais grupos defendem.


O processo civilizatório tem como consequência a supressão (ou limitação) de instintos poderosos, como os de natureza sexual – não iremos nos deter nele – e o de agressão, de modo que possibilite aos seres humanos viverem em comunidade, sob controle da maioria, apoiados no Direito e com justiça. A tendência à agressão se oporia à evolução cultural, com as características definidas nos parágrafos anteriores. Esse conflito provoca perturbações para os seres humanos, “pois não é fácil para os homens renunciar à gratificação de seu pendor à agressividade”.


Vamos, então, para a conclusão de Freud em O Mal-Estar na Civilização: “A meu ver, a questão decisiva para a espécie humana é saber se, e em que medida, a sua evolução cultural poderá controlar as perturbações trazidas à vida em comum pelos instintos humanos de agressão e destruição. Precisamente quanto a isso, a época de hoje merecerá talvez um interesse especial. Atualmente, os seres humanos atingiram um tal controle das forças da natureza que não lhes é difícil recorrerem a elas para se exterminarem até o último homem”. Palavras proféticas escritas em 1930, anteriores, portanto, ao domínio do átomo e da demonstração do poder destruidor da energia nuclear quando empregada como arma de destruição em massa; entretanto os seres humanos souberam conter-se, até o momento, diante da ameaça de extinção de nossa espécie da vida na Terra.


Voltemos, então, à resposta de Freud ao questionamento feito por Einstein no ponto em que ele analisa o antagonismo entre as pulsões eróticas e o desejo de morte, ou seja, entre as tendências para a vida e para a morte. Freud chega à conclusão de que é uma ilusão buscar-se eliminar totalmente as tendências agressivas dos seres humanos de modo a evitar-se a guerra. O que ele considera possível é nos voltarmos para o instinto opositor ao de morte – o

instinto pela vida – ao criarmos laços afetivos entre nós, que nos liguem com os sentimentos de comunidade. Para isso, também irá contribuir o processo de evolução cultural, como mencionado anteriormente. Os mais importantes e significativos fatores psicológicos da cultura seriam o fortalecimento do intelecto e a interiorização das tendências agressivas, se bem que este último item tem consequências vantajosas e, também, perigosas.


Tanto Einstein como Freud alertavam para os cuidados a serem observados quanto ao tratamento da agressividade humana. Einstein, em sua pergunta: “Existe a possibilidade de dirigir a evolução psíquica dos homens de modo a tornarem-se capazes de resistir às psicoses do ódio e da destruição”? Freud, em resposta, diz: “Por outro lado, como adverte, não se trata de eliminar totalmente as tendências agressivas humanas; pode tentar-se desviá-las, de modo que já não encontrem sua expressão na guerra”. Está claro, portanto, combinando-se as palavras desses dois grandes pensadores, que não se deve buscar “a eliminação das tendências agressivas das pessoas”, mas, sim, verificar a “possibilidade de dirigi-las” (acrescento: sem sufocá-las!) para que não se chegue à guerra.


"Dificilmente se pode pôr em dúvida o fato de ser o homem uma criatura agressiva”. Esta é a primeira frase do livro A agressão humana, de Anthoy Storre, publicado em 1968, com o título Human Agression na edição em língua inglesa. Adiante, no mesmo parágrafo, o autor acrescenta: “O fato sombrio é que somos a espécie mais cruel e implacável que jamais pisou sobre a Terra e que, embora possamos ficar horrorizados quando lemos, no jornal ou nos livros, história sobre as atrocidades cometidas pelo homem contra o homem, sabemos, intimamente, que cada um de nós abriga dentro de si os mesmos impulsos selvagens que levam ao assassínio, à tortura e à guerra”. [Ainda] no século XVII, Thomas Hobbes tinha [também] uma visão pessimista da natureza humana. Para ele, apenas a força das palavras seria insuficiente para conter ambição, avareza, ira e outras paixões humanas, sem que houvesse o temor de algum poder coercitivo.


De acordo com [Konrad] Lorentz, a intensidade destrutiva do instinto de agressão nos seres humanos é mais do que provável que se deva ao processo de seleção intraespecífica de nossa espécie, que atuou por, aproximadamente, 40 mil anos por toda a Idade da Pedra. Esse instinto estaria inserido em nossa natureza, mesmo que os perigos representados por fome, frio e presença de animais selvagens tenham sido superados pela posse de armas e de agasalhos e pelo estabelecimento de uma organização social. Nós diríamos que tais perigos não foram superados, pelo menos não inteiramente, com a possível exceção da presença de animais selvagens, nem por todos os segmentos sociais. Daí a necessidade e a importância de as sociedades identificarem tais ameaças, porque, se isso não for feito, poderá aflorar o

instinto agressivo humano com toda intensidade, com consequências danosas para a paz e a harmonia social. Hordas de desabrigados, famintos e com suas vidas ameaçadas são, sem dúvida, um fator de desestabilização social muito preocupante. A História está repleta de exemplos.


Em On Agression, Lorentz cita um artigo que escreveu em 1955 com o título "On the Killing of members of the same species", do qual traduzimos:


"Eu acredito e psicólogos humanos, psicoanalistas em especial, deveriam testar isto – de que o homem civilizado moderno sofre com a falta de descompressão de seu instinto agressivo. É mais do que provável que os efeitos maléficos dos instintos humanos, explicados por Sigmund Freud como resultantes de um desejo de morte especial, simplesmente se derivam do fato de que em eras pré-históricas a seleção intraespecífica gerou no homem uma parcela de instinto agressivo para o qual na ordem social de hoje ele não encontra válvula de escape adequada."


Um exemplo muito interessante de modificação de tendência agressiva é dado por [Elliot] Aronson com o ocorrido com os índios Iroquois, que viveram em paz, por séculos, como caçadores, até que a chegada dos europeus, no século XVII, levou-os à competição com os seus vizinhos Hurons pelo comércio de peles. Deram-se, então, várias guerras entre eles, com os Iroquois tendo se tornado guerreiros ferozes e bem-sucedidos, devido não a seus instintos agressivos incontroláveis, mas à mudança social produzida pelo aumento da concorrência. Após citar e analisar muitos dos fatos e exemplos aqui relacionados, Elliot

Aronson chega à conclusão, em nosso ver muito equilibrada, exposta a seguir:


"Embora a componente devida ao instinto esteja quase certamente presente nos seres humanos, a agressão não é causada inteiramente pelo instinto. São claros os exemplos de eventos situacionais e sociais que podem produzir comportamento agressivo. Mais importante ainda, nós sabemos que, nos seres humanos, esse comportamento pode ser modificado por fatores situacionais e sociais. Em resumo, o comportamento agressivo pode ser reduzido."


Hobbes, em Leviatã, considerava que todos os homens eram iguais, pois ninguém era tão dotado de força e inteligência de modo a não ser superado por outros. A disputa entre dois seres iguais que desejassem a mesma coisa ensejaria o emprego da violência, ou seja, “a guerra de cada homem contra todos os outros”. Assim, os seres humanos viveriam em guerra em seu estado inicial, primitivo ou primevo. Suas vidas seriam “solitárias, pobres, detestáveis, brutais e breves”, nas palavras de Hobbes.


Para fugir desse estado de guerra, os seres humanos estabeleceram, então, um pacto, no qual aceitavam delegar ao governo o monopólio do uso da força, abdicando de muitas liberdades, de modo a punir internamente os criminosos e se defender dos inimigos externos. Anteriormente, neste artigo, já vimos essa visão pessimista de Hobbes da natureza humana e da necessidade de existência de um poder coercitivo.


Assim como Hobbes, Rousseau também afirmava a igualdade natural dos seres humanos; entretanto, em seu estado de natureza, seríamos governados por paixões que seriam satisfeitas caso não existissem as instituições – nada naturais, segundo Rousseau – da monogamia e da propriedade privada. A compaixão é inata nos seres humanos, ela era “esmagada apenas quando a inveja era criada pelas origens do casamento, propriedade, educação, desigualdade social e a sociedade civil”. Para Rousseau, o selvagem, exceto quando faminto, era amigo de todos e não tinha inimigos. Daí surgiu o mito do bom selvagem, que viveria pacificamente quando a humanidade foi formada, e assim permaneceria por todo o sempre. A guerra teria se tornado este fenômeno calamitoso quando a sociedade se transformou com a adoção de leis não naturais. Essa artificialidade levou ao abandono das leis naturais e das paixões, à perda da compaixão e, consequentemente, a “desordens terríveis”. Transcrevemos a seguir frase lapidar de Lawrence Keeley sobre esse comportamento de Rousseau e seus seguidores: “Eles estavam tão completamente convencidos de que o estado natural da sociedade humana era uma combinação pacífica de amor livre e comunismo primitivo que não viam esses primeiros encontros violentos como outra coisa que não fossem raras aberrações”.


Na introdução de seu livro ["Nobres Selvagens:..."], [Napoleon] Chagnon mostra a derrocada da “visão rousseauniana” da vida idílica dos “nobres selvagens” ou “bons selvagens”, termos que Rousseau nunca empregou, mas que se tornaram comuns para definir o conceito estabelecido por ele sobre a vida dos seres humanos no estado de natureza, quando seriam “felizes, não violentos, altruístas e não competitivos, e que as pessoas eram, de modo geral, amáveis e cordiais em suas relações”. Para Chagnon, o nosso passado distante seria mais bem descrito com a adoção da visão de Thomas Hobbes com vida curta, sórdida e brutal.


Logo em sua primeira viagem à Venezuela, em 1964, Chagnon constatou, no campo, dois fatos que o abalaram profundamente, pois contradiziam tudo o que havia estudado na literatura antropológica. O primeiro foi que a guerra entre os nativos ianomâmis não era ocasional ou esporádica, mas, sim, “uma ameaça crônica, sempre à espreita”, e, o segundo, que a “maioria das discussões e brigas começava por causa das mulheres”. Ao contrário do que se pensava até há pouco tempo, nas sociedades não estatais a guerra era frequente e envolvia grande parcela dos recursos humanos das sociedades tribais.


As descobertas arqueológicas demonstram claramente que não existe associação possível entre guerra e civilização, ou seja, de que foi a civilização que nos trouxe a guerra. Os achados arqueológicos, juntamente com análises antropológicas isentas, provam exatamente o contrário. Em adição aos exemplos já citados, mencionaremos apenas o massacre de Talheim, na Alemanha, ocorrido em 5.000 a.C., em que os corpos de 18 adultos e crianças foram atirados em cova coletiva. Não há registro conhecido da existência de qualquer civilização ou Estado nesse período histórico, em qualquer lugar de nosso planeta.

Dessa forma, só podemos concordar com Lawrence Keeley: o bom selvagem não passa de um mito do bom selvagem.


CONSIDERAÇÕES FINAIS


A eliminação das tendências agressivas das pessoas não é uma opção para que os seres humanos evitem a guerra. Esse tipo de solução autoritária, além de ser difícil (quase Impossível) de implementar, só traria mais problemas e agravaria conflitos. Tanto Einstein como Freud concordam que não se devia eliminá-las, mas sim com a possibilidade de dirigi-las de modo a não se chegar à guerra. A maneira de se conseguir isso é pela evolução cultural ou processo civilizatório. A agressividade é um componente intrínseco à natureza humana. Ela permitiu à nossa espécie sobreviver diante de inúmeros “inimigos” naturais. Se isso nos tornou predadores de outras espécies, é uma outra discussão.


Os seres humanos desenvolveram, em toda a sua existência, uma complexa rede de relações sociais, as quais são difíceis de analisar e de reduzir a interações simples e diretas:

- Somos sempre agressivos? A resposta é não.

- A agressividade está presente, em mesmo nível, todos os seres humanos? A resposta também é não; o comportamento agressivo pode ser reduzido. Além disso, temos exemplos de povos pacíficos que desenvolveram relacionamentos com outras comunidades também de maneira pacífica.

- A agressividade humana é inata e é ela que provoca as guerras? Sim, é inata, mas se é que dá início ou é o principal fator motivador que nos leva à guerra é uma pergunta ainda não completamente respondida, apesar dos inúmeros esforços para fazê-lo.

- A agressividade humana pode ser contida ou, pelo menos, diminuída? Sim, o processo civilizatório poderá contribuir para isso.


2. Extraído de "ENSAIOS DE GRANDE ESTRATÉGIA BRASILEIRA" (João Paulo Alsina Jr.)


No mundo contemporâneo, tem sido recorrente a reiteração de narrativa sobre o caráter intrinsecamente malévolo da guerra, assim como sobre sua futilidade. Nada de novo há nesse discurso, que pode ser identificado como uma das diversas ressurgências dos ideais iluministas em favor da paz universal. A senda da proscrição jurídica e moral da guerra já foi trilhada muitas vezes, sempre sem sucesso.


[Michel] Howard, ao discutir a problemática relação entre o pensamento liberal (no sentido inglês) e a guerra, dirá o seguinte sobre as possibilidades concretas de um sistema de segurança coletiva impedir a ocorrência de conflitos:


"Criar um genuíno sistema mundial de segurança coletiva tem sido o objetivo de homens de Estado liberais por todo este século XX. Mas um tal sistema exige um grau de confiança mútua, uma homogeneidade de valores e uma coincidência de interesses percebidos que não existiram mesmo em uma sociedade (internacional) limitada como a Europa do entreguerras. Nós estamos muito longe de criá-lo no mundo culturalmente heterogêneo que habitamos hoje".


A despeito das sensatas palavras de Michael Howard, é relevante, para os fins deste trabalho, discutir a tese hodierna encapsulada na fórmula repetida ad nauseam pelos apoiadores da eliminação da guerra do universo da política: “não há solução militar para o conflito”. Essa manifestação retórica insere-se perfeitamente no rol das tentativas fracassadas de limitação da guerra anteriormente aludidas. Nas palavras de um conceituado autor: "o desgosto pela guerra é um fato compreensível, até mesmo louvável, do nosso tempo. Ele é também […] potencialmente perigoso se o desgosto se metamorfosear em rejeição aberta. […] A guerra funciona. Reconhecidamente, ela não funciona sempre como o pretendido, com as consequências que foram projetadas, mas essa é uma razão para recorrer ao uso da força apenas com extremo cuidado, não para rejeitar a opção inteiramente".


A frase retórica enunciada carrega dois conceitos implícitos: 1) a guerra não resolve, antes agrava, os conflitos entre grupos humanos; e 2) há disjunção radical entre a política entendida em sentido lato, única capaz de resolver os conflitos (por meios persuasivos), e o emprego do poder militar — encarado como um ato irracional que nega a própria política no momento em que entra em cena. Ambos os conceitos representam simplificações grosseiras e insustentáveis. Tanto na primeira, quanto na segunda hipótese, desconsidera-se o caráter agônico da opção pela guerra, tendo por régua e compasso uma visão idealizada da praxis política, que recusa a realidade das circunstâncias em que as opções disponíveis aos homens de Estado situam-se entre o desastre absoluto e o mal menor.


Não há provas de que a guerra sempre, e em qualquer circunstância, resulte em um agravamento dos conflitos. Seria o mundo um lugar melhor para se viver caso a Alemanha nazista não encontrasse oposição por parte da França e da Grã-Bretanha após a invasão da Polônia? Seria o mundo um lugar melhor para se viver se os EUA não adotassem uma política de contenção do expansionismo comunista a partir do final da Segunda Grande Guerra? É evidente que um exercício tão complexo e sujeito ao acaso como a guerra pode resultar em consequências não previstas e verdadeiramente catastróficas — como no caso da intervenção norte-americana no Iraque a partir de 2003. No entanto, isso não significa admitir que a guerra nunca gere resultantes positivas para os vencedores ou para o sistema internacional como um todo: basta recordar, por exemplo, que os Estados Unidos, e mesmo o Brasil, se beneficiaram significativamente da Segunda Guerra Mundial.


O fato de o fenômeno [da guerra] envolver violência, morte, destruição, além de ser altamente volátil, não implica que o recurso a ele seja um mal intolerável. Tudo dependerá do contexto em que as gravosas decisões em favor da opção bélica forem tomadas. A teoria da guerra justa, por exemplo, delimita os parâmetros que estão na base de decisão moralmente aceitável no sentido do emprego da força: causa justa, autoridade legítima, intenção acertada, proporcionalidade, probabilidade de sucesso, e último recurso. Ninguém negará que as soluções incruentas são, por definição, preferíveis ao ultima ratio regis. Essa admissão, contudo, está longe de significar que a guerra seja invariavelmente um exercício perverso a priori. De outra perspectiva, a disjunção radical entre política e guerra, na contramão do dictum clausewitziano, é um dos "topoi" [lugares-comuns] mais popularmente difundidos — e não somente em círculos iletrados. Embora esse equívoco tenha implicações profundas, que o autor procurará explorar mais à frente, caberia fazer alguns comentários iniciais sobre o tema.


Uma consequência prática dessa disjunção é a caracterização da guerra como ocorrência irracional, que representaria o fracasso irretorquível da política. Em decorrência, aqueles que apelam à guerra não podem, por definição, fazer parte do universo civilizado. Nessa chave interpretativa, ao barbarismo dos que optam pelas vias guerreiras devem corresponder ações repressivas igualmente bárbaras — pois o inimigo incivilizado não pode estar no mesmo plano moral dos agentes que procuram reestabelecer a preponderância da política desbastada de sua inextricável faceta coercitiva. A tragédia da guerra civil síria serve como ilustração de outro elemento paradoxal decorrente do desprezo pelo legado do general-filósofo prussiano. Se o uso do instrumento bélico e a política constituem universos totalmente distintos, e mesmo contraditórios, como a ONU, criada para livrar o mundo do flagelo da guerra, poderia impedir a continuação do massacre de centenas de milhares de vidas inocentes naquele país do Oriente Médio? Continuar tentando, indefinidamente, enquanto milhares de seres humanos são trucidados? A condenação moral e a desumanização dos atores em contenda representam fatores de agravamento, e não de mitigação, da crise vivida pela Síria. O caso é emblemático de um duplo problema. Em primeiro lugar, ao estigmatizar o uso da força militar como continuação legítima da política por outros meios, os anticlausewitzianos solapam o argumento em prol da intervenção da comunidade internacional visando a estancar o morticínio naquele país. Em segundo lugar, a deslegitimação do poder militar, tido por essa perspectiva como corpo estranho à política, torna menos crível que a ameaça de intervenção externa venha a afetar positivamente o comportamento dos contendores no sentido do apaziguamento. Desprovido de sua dimensão coercitiva, o poder dos agentes externos ao conflito se esvai — tornando mais reduzida sua capacidade de influência sobre o processo, em razão da limitação das ações ao plano exclusivamente persuasivo.


A despeito dessas breves considerações, há que se considerar a possibilidade de que, em situações específicas, efetivamente não haja solução militar para um conflito. Em tese, o emprego do poder militar pode ter um custo tão elevado que sua utilização se torne proibitiva. Esse típico argumento liberal, difundido por trabalhos como A grande ilusão (1910) de Norman Angell, foi desmontado pela história de maneira acachapante — como as consequências da crise de Sarajevo viriam a demonstrar. A debilitação da tese, contudo, não significa que, em circunstâncias determinadas, ela não encontre ressonância no mundo real. Vale sublinhar que a dificuldade das predições heroicas sobre o fenômeno bélico é reconhecida até mesmo por alguns dos seus proponentes. Mueller, que sustenta haver uma notável redução da incidência das guerras desde 1945, não sabe localizar de modo preciso os fatores que estariam na base dessa suposta tendência. Excluída a hipótese de guerra nuclear em larga escala, a mensuração dos custos e da eficácia da guerra como instrumento político — entendido tanto como fator de apaziguamento quanto meio de dobrar o oponente à nossa vontade — não pode se dar de modo prévio, a não ser de maneira probabilística. A história das guerras está repleta de avaliações equivocadas.


Cabe sublinhar que a limitação da guerra, desiderato de todas as pessoas sãs, não pode ser alcançada por meio de exortações vazias. Ao contrário, somente a compreensão da sua natureza pode gerar os rudimentos cognitivos imprescindíveis à administração responsável dos negócios do Estado, no que tange a uma das suas facetas mais salientes ao longo de toda a história humana.


3. Extraído de "A ARTE DA ESTRATÉGIA" (Antonio Ruy de Almeida Silva)


Clausewitz afirma que “a guerra pode ter sua própria gramática, mas não sua própria lógica”. A lógica será sempre determinada pelo objetivo político que se deseja alcançar. A tecnologia, por exemplo, que é apenas uma dimensão da arte de fazer a guerra, muda com o passar do tempo. Embora importante, ela é parte da gramática. Ela não muda a lógica da guerra. Conforme citação de Creveld, “a tecnologia, para funcionar, depende da existência de um mundo físico objetivo (...) com seu caráter uniforme, repetitivo, previsível. Ela funciona em uma lógica linear. A lógica da guerra, por outro lado, é paradoxal, oposta à linear. A guerra é um assunto do coração”. E nesse assunto, risco, caos, incerteza, fatores irracionais, tais como moral, coragem e honra, jogam um papel fundamental.


Segundo Clausewitz, a guerra é uma trindade de paixão, chance e razão, e o sucesso do emprego da força depende do governo, do povo e do poder militar. Dependerá sempre, portanto, somente do equilíbrio entre a vontade política, o apoio da população e a eficácia na condução do emprego da força. Embora a tecnologia seja importante e ajude a alcançar a vitória, ela é apenas um elo na corrente da guerra. Os fatores não materiais, inclusive os morais, desempenham um papel fundamental no sucesso do conflito.


Todo esse conjunto de ideias deve ser entendido no contexto da interação entre vontades conflitantes, portanto, o “outro” joga um papel relevante no ambiente estratégico, definindo a condição recíproca do conflito, cuja natureza varia, dependendo do contexto. Isto implica a necessidade de os decisores possuírem uma aguda capacidade de avaliação política e de julgamento estratégico. Assim sendo, nem sempre a vitória no emprego da força. O sucesso é alcançado, normalmente, quando se consegue um resultado político que leve em conta aspectos fundamentais para ambos os lados, possibilitando uma coexistência pacífica e um ambiente mais estável pós-conflito.


Este trabalho começou com uma frase de Platão: “Apenas os mortos viram o fim da guerra”. A História, infelizmente, mostra que a guerra tem sido uma constante na jornada da Humanidade, e parece que no futuro previsível isso não mudará. Embora cada guerra tenha suas peculiaridades, a natureza da guerra é imutável. Ela é a aplicação da violência para atingir objetivos políticos. Como afirmado por Clausewitz, “a guerra é um duelo em grande escala... é um ato de força para obrigar nosso inimigo a fazer nossa vontade. A guerra é um fenômeno constituído por uma trindade paradoxal composta de violência, ódio e inimizade.”


A esperança de que a guerra entre as grandes potências havia se tornado coisa do passado parece ir se esvaindo quando a Estratégia de Segurança Nacional dos EUA estabelece que a principal preocupação de segurança para aquele país é a competição estratégica com outras potências e afirma que os “Estados Unidos responderão à crescente competição política, econômica e militar, principalmente com a China e a Rússia, que busca desafiar o poder, a influência e os interesses norte-americanos e erodir a segurança e a prosperidade dos EUA.”


Como o emprego da força e a ameaça do seu uso não parecem fadados a desaparecer em futuro previsível, a sua íntima relação com a política garante que os instrumentos de força continuarão a desempenhar um papel importante na política contemporânea. Assim sendo, os Estudos Estratégicos, mesmo avançando por diferentes veredas e abordagens contemporâneas, não poderão deixar de analisar o caminho que os estrategistas “clássicos” traçaram com tanta sabedoria.

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